Minha Rainha (2018-em andamento)
MINHA RAINHA – NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DA PRAIA: UM ENSAIO SOBRE A PRESENÇA DO SAGRADO E MINHA HERANÇA VISUAL
Em Salvador, onde o Atlântico banha a terra em um eterno diálogo de culturas e crenças, este projeto fotográfico surge de um desejo vital. Mais do que um registro devocional, ele se configura como uma profunda investigação visual sobre a presença viva do sagrado, não apenas como um ícone venerado, mas como o ponto central que moldou a minha própria maneira de ver o mundo.
Imersa desde a infância nas tradições da fé popular, nas narrativas de meu pai, um guardião de histórias e dados do IBGE que trazia o mundo para dentro de casa e no cuidado meticuloso de minha mãe, costureira e artífice de saberes manuais, encontrei na devoção a Nossa Senhora da Conceição da Praia um pilar fundamental para a construção da minha identidade.
Este ensaio é, para mim, uma reencenação poética da fé, onde a imagem não se limita a documentar, mas a atuar, a performar. Me interessa, uma estética que compreende o ato fotográfico como um ritual, no qual a luz, a sombra e o gesto se entrelaçam para revelar camadas de significado e memória. Minha proposta visual, nasce de um evento relacional, para se aproximar de uma compreensão profunda da experiência do devoto. Em cada cenário, seja nos recantos silenciosos da Basílica Santuário ou nas ruas vibrantes que pulsam com a energia da cidade, a devoção manifesta-se como uma herança visual e espiritual, transmitida e ressignificada de geração em geração. A fotografia, em minhas mãos, não é apenas um espelho, mas uma dimensão para o “isso foi” de Barthes: a prova de que algo existiu, um testemunho da existência e persistência dessa fé em meu corpo e em minha cultura.
A Fotografia como Meu Arquivo Vivo e Minha Visão Crítica da Representação do Sagrado
Este projeto nasce do meu desejo intenso de revisitar e reinterpretar a devoção a Nossa Senhora da Conceição da Praia, figura que, para além de seu simbolismo religioso, é um catalisador de memórias e afetos que moldaram a minha existência. Cresci em um ambiente permeado pela religiosidade popular e pelo labor artesanal; aprendi a ler o mundo através das histórias que se entrelaçam com os objetos, os rituais e os gestos sagrados, transformando-os em parte inseparável da minha identidade.
Ao aproximar minha prática fotográfica de uma encenação poética, o registro se torna um ato de criação que, como um ritual, não apenas preserva, mas também transforma o presente e o passado.
Sou movida por uma sensibilidade que reconhece na luz e na sombra a capacidade de revelar o invisível e o intocado. Emprego a imagem como um meio de expressão que transborda o tempo, resgatando a memória coletiva e as tradições que se perpetuam através dos gestos cotidianos. O ato de coroar a santa, de adornar seu manto, de carregar sua imagem em procissão.
A integração entre a minha vivência pessoal e as narrativas coletivas constitui o eixo central deste ensaio. Cada fotografia é concebida como um “palco” onde a devoção se manifesta com a força de um legado ancestral, um legado que se estende do meu pai, com suas histórias do interior da Bahia, à minha mãe, que, com mãos hábeis, costurava não apenas tecidos, mas destinos e identidades. Essa convergência de memórias e saberes transforma a imagem em uma visão crítica e artística que questiona as representações mais comuns e estabelecidas do sagrado, propondo uma leitura que valoriza a dimensão popular, a apropriação e a ressignificação cultural.
Assim, este projeto justifica-se não apenas pelo meu desejo de preservar e celebrar a tradição de Nossa Senhora da Conceição da Praia, mas também pela urgência de repensar a forma como a fé e a cultura se entrelaçam na construção da identidade contemporânea brasileira. Por meio de uma abordagem que une o registro performático à profunda reflexão poética, proponho um olhar renovador que convida o espectador a descobrir, nas intersecções entre o passado e o presente, a beleza e a complexidade de um legado que, em sua essência, é tão humano quanto misterioso e profundo, e que se manifesta na aura singular de cada imagem que emerge da minha produção.