ãkrãn mãhãhã - Coração Triste (2023- Em andamento

Cheguei a Coroa Vermelha sob uma luz translúcida, quando o Aragwaksã incendiava a praia em cantos, penachos e passos compassados. Não trazia um projeto pronto, mas uma urgência silenciosa e uma pergunta que insistia: como vivem, resistem e se reinventam os povos originários diante das pressões do presente? Essa pergunta vinha de longe, das histórias que meu pai colhia nas regiões que percorria, da precisão com que minha mãe transformava tecidos em dignidade. Mas sabia que apenas a escuta poderia respondê-la.

Antes de qualquer disparo, conversei com os líderes Pataxó. Perguntei como desejavam ser retratados, que histórias queriam compartilhar, que aspectos de sua vida resistente mereciam visibilidade. Essas conversas foram meu verdadeiro método. Quando Ailton Krenak me foi mencionado por um dos anciãos, “ele fala de coisas que nós vivemos”, percebi que não estava ali para impor narrativas, mas para escutar as que já existiam, as que pulsavam na aldeia há séculos.

O que observei não era melancolia imposta, mas a complexidade viva de um povo que celebra e resiste simultaneamente. Uma mãe dançava enquanto sussurrava preocupações com o futuro de seus filhos. Um jovem cantava com força enquanto seus olhos registravam a ausência de terras que lhe pertenciam. Não era meu papel nomear esse estado; era meu dever testemunhá-lo com respeito e, depois, perguntar: “É assim que vocês desejam que isso seja visto?”

Em um mundo repleto de imagens sobre povos indígenas, onde narrativas visuais já se cristalizaram em imaginários coletivos, percebi que a fotografia convencional poderia apenas reforçar o que já se conhece. Levei uma câmera modificada para o infravermelho não como ferramenta de revelação de verdades ocultas, mas como convite a uma nova aproximação. Quando o verde da mata atlântica se converte em brasas espectrais, o espectador é convidado a sair de sua zona de conforto visual, a questionar suas próprias expectativas sobre como deveria parecer uma aldeia indígena. Os rostos permanecem firmes e meditativos, mas agora imersos em uma paleta que estranha, que desafia, que recusa a domesticação do olhar.

Essa escolha estética não é neutra. Ela funciona como um gesto político: ao transformar a paisagem familiar em algo que não reconhecemos imediatamente, criamos espaço para uma escuta renovada. O vermelho vegetal não revela o que estava oculto; antes, ele suspende nossas certezas visuais e nos convida a permanecer na dúvida, a escutar com mais atenção, a reconhecer que talvez nunca víssemos realmente, mesmo quando olhávamos.

Carrego a responsabilidade desse encontro como quem roça o tambor, atento ao baque que reverbera muito além do instante do disparo. Cada retrato é um convite: convida quem observa a participar do acontecimento, a escutar o eco distante das queimadas de Barra Velha, a reconhecer que toda ferida colonial é também ferida do mundo. Mas esse convite não é meu; é dos Pataxó que, generosamente, permitiram que eu estivesse ali.

Se estas imagens sobrevivem, não é pela excentricidade de sua cor espectral, mas porque transportam a dupla chama de uma esperança cautelosa, esperança que ouvi nomeada pelos próprios Pataxó em suas palavras, seus cantos, sua recusa de serem entulho. Os olhos firmes e meditativos devolvem a quem olha a chance de aderir ao pacto relacional que apenas é possível quando há verdadeira escuta.

Aprendi, nesses dias, que a hospitalidade Pataxó é feita de elegância brava: recebe, mas não se rende; oferece o canto, mas resguarda o silêncio onde ainda pulsa a dor coletiva. E nesse silêncio, descobri meu próprio lugar, não como intérprete, mas como testemunha que reconhece seus limites, que erra, que reapre nde, que segue escutando. Pois a aldeia não é cenário nem vitrine: é escola, é espelho, é lugar de troca. E para que haja troca é preciso tempo, presença, humildade

Tudo começa com uma ideia. Talvez você queira abrir um negócio. Talvez você queira transformar um passatempo em algo mais sério. Ou talvez você tenha um projeto criativo para divulgar ao mundo. Seja o que for, o modo de contar sua história on-line faz toda a diferença.