As Cidades Invisíveis (2020-em andamento)

 Nossas cidades são palcos de concreto, aço e vidro que acreditamos conhecer intimamente. Percorremos suas ruas, deciframos seus mapas e nos acostumamos à sua paisagem diária. No entanto, tanto a arte da fotografia infravermelha quanto a literatura de Italo Calvino nos propõem um exercício radical: o de olhar novamente e perceber que o real é muito mais profundo do que o visível.

A fotografia infravermelha é uma técnica que captura um espectro de luz que o olho humano não pode ver. Ao registrar o calor emitido pelos objetos em vez da luz que eles refletem, essa forma de fotografia transforma o mundo familiar em um cenário onírico e, por vezes, fantasmagórico. Em uma paisagem urbana infravermelha, o céu pode se tornar um breu dramático, a vegetação de um parque explode em um branco etéreo, quase como neve, e a frieza do concreto ganha novas texturas. A cidade, embora estruturalmente a mesma, revela uma nova identidade, uma camada de sua existência que sempre esteve presente, porém oculta à nossa percepção. É uma tradução visual do invisível

É neste ponto que a lente infravermelha e a pena de Calvino se encontram. Em “As Cidades Invisíveis”, o explorador Marco Polo não descreve cidades reais para o imperador Kublai Khan. Em vez disso, ele narra cidades da memória, do desejo, dos símbolos e dos mortos. São lugares que existem apenas na imaginação e na linguagem, construídos a partir de fragmentos da realidade para revelar verdades mais profundas sobre a natureza da vida urbana e da própria condição humana.

Assim como um fotógrafo infravermelho não “inventa” uma paisagem, mas a revela sob uma nova luz, Marco Polo não mente sobre suas cidades; ele as descreve através de uma percepção diferente. A cidade de Zora, por exemplo, que permanece impressa na memória, mas que é impossível de ser revisitada, ou a cidade de Ersilia, onde os habitantes esticam fios coloridos para marcar relações, criando uma teia tão complexa que precisam abandoná-la. Essas não são geografias, mas sim diagramas da alma de uma cidade.

A cidade, portanto, não conta o seu passado, mas contém-no como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.

A fotografia infravermelha faz exatamente isso: ela lê as “linhas da mão” da cidade de uma forma não convencional. O calor retido por um muro antigo, a energia de uma árvore solitária em uma praça, a ausência de calor em um rio que corta a metrópole — tudo isso conta uma história que a luz visível ignora. A técnica revela o “invivível” que existe dentro do “vivível”, como sugere a análise da obra de Calvino.

Portanto, entrelaçar a fotografia infravermelha com “As Cidades Invisíveis” é entender que toda cidade é, na verdade, um conjunto de cidades sobrepostas. Há a cidade que vemos, a cidade que sentimos, a cidade que lembramos e a cidade que sonhamos. A câmera infravermelha, com sua capacidade de ver o calor, nos dá um vislumbre de uma dessas camadas ocultas, transformando o concreto em poesia e o familiar em mistério. Ela nos oferece a chance de sermos, por um instante, Marco Polo em nosso próprio império, descobrindo que a cidade mais fascinante não é aquela que está no mapa, mas aquela que se revela quando aprendemos a enxergar o invisível